Um ponto aqui, uma laçada ali e muita paciência. A antiga técnica do crochê ganha destaque nas mãos de novas artistas, que resolveram espalhar suas peças pelas intervenções urbanas. O resultado não é nada óbvio. A delicadeza e o colorido da peça contrastam, de forma orquestrada, com o movimento e os tons acinzentados da metrópole
Apaixonada por linhas e agulhas desde a infância, a designer Anne Galante, 29 anos, vive da criação artesanal e venda de roupas, acessórios e objetos de decoração feitos de crochê. Paralelamente ao trabalho, a designer mantém o projeto Nem Todo Splash é Tinta, em que desenvolve peças de crochê para intervenções urbanas. De acordo com ela, a inspiração para o projeto surgiu do trabalho da artista visual polonesa Agata Olek, que há anos cobre objetos e paredes com crochê. Anne cria o desenho no computador, o reproduz na trama com a técnica do crochê filé – que alterna quadrados cheios com vazios – e usa a peça como estêncil em grafites urbanos. Além de funcionar como uma espécie de carimbo, seus crochês podem ser aplicados diretamente à parede, a fim de garantir textura a pontos da pintura. Desde 2011, quando deu início ao projeto, Anne já fez mais de 50 participações em muros. Um dos trabalhos mais imponentes está na Avenida 23 de maio, no sentido do Centro, em um grafite feito pelas artistas Tikka Menzaroz e Bárbara Goy. Para a produção dessa peça foram gastos mais de 15 quilos de lã, além de oito dias de trabalho intenso. A maioria de seus trabalhos urbanos é feita gratuitamente e sempre em muros autorizados. Em maio de 2011, por meio da Lei 12.408/2011, o grafite realizado com o objetivo de valorizar o espaço público ou privado foi descriminalizado.
O espaço cheio de flores e pequenos animais feitos de crochê se destaca em meio ao verde abundante do Parque Buenos Aires, no bairro Higienópolis. As responsáveis pela colorida Floresta de crochê são Teresa Eça, 52 anos, e Patrícia Upton, de 56 anos, organizadoras do Coletivo Agulha. O projeto começou há mais de um ano, quando Teresa, Patrícia e algumas amigas foram à Rua 25 de Março comprar quilos de lã, a fim de produzir peças de crochê para doação. O grupo começou a se reunir constantemente no parque, até que a ideia de fazer uma intervenção acabou surgindo. Além dos encontros semanais no parque e na Praça Roosevelt, no Centro, o grupo se junta uma vez por mês com as mulheres em tratamento na ala de quimioterapia do Hospital Pérola Byington, no bairro Bela Vista. “Levamos as lãs, agulhas e vamos crochetando todas juntas. Como muitas perderam os cabelos, a ideia é produzir gorros, boinas e chapéus de crochê para elas mesmas usarem”, diz Teresa. Segundo as organizadoras, o objetivo do Coletivo Agulha – que atualmente reúne mais de 15 pessoas ativas no projeto – é se aproximar da cidade de maneira carinhosa, além de trabalhar com a questão do desapego. “A ideia é justamente se desapegar, doando o crochê à cidade ou a alguém que precise”, finaliza.
Aos sete anos de idade, a artista plástica Letícia Matos já brincava de crochetar com a mãe. Hoje, aos 38 anos, vive do trabalho com o crochê. Suas tramas e pompons de lãs já compõem mais de 300 intervenções em árvores e postes da cidade. A ideia do projeto surgiu há três anos, quando ensinava algumas amigas a crochetar. Nessa aula, Letícia e suas amigas fizeram 13 pompons de lã e enfeitaram uma árvore da rua. De lá para cá, a artista nunca mais parou. “No começo, fazia pequenas tramas de crochê e enfeitava as árvores próximas às casas dos meus amigos. A ideia era fazer um carinho, e eu sempre colocava 13 pompons, ou múltiplos de 13”, afirma. A última intervenção feita por Letícia aconteceu em uma árvore entre a Alameda Santos e a rua Haddock Lobo, nos Jardins. Atualmente, algumas lojas pagam pelo trabalho da artista, embora a maioria ainda aconteça gratuitamente. “A proposta não mudou. O crochê e os pompons são colocados como um presente para a cidade”, diz. Além daquela, Letícia já personalizou outras árvores do bairro, como a da rua Oscar Freire e a da Alameda Itú, e garante nunca ter sido impedida de aplicar as tramas. “O crochê é algo muito nostálgico. As pessoas costumam elogiar o trabalho e falar de suas avós”, afirma.
Há quatro anos, a designer Karen Bazzeo, 29 anos, saiu de Bauru, no interior do Estado, e veio a São Paulo para começar vida nova. A mudança fez Karen sentir falta de algo que lembrasse o interior e resolveu voltar a crochetar. Ano passado, ela deu início ao projeto Pegue 1 Coração, que consiste na colocação de pequenos corações de crochê em árvores, os quais ficam disponíveis para as pessoas pegarem. Em janeiro, fez sua primeira aplicação de crochê em um muro grafitado pelos amigos Felipe Primat e Julio Falaman, que está localizado na esquina da rua Francisco Leitão com a rua Artur de Azevedo, em Pinheiros. “Produzir o crochê e aplicar a trama neste muro exigiu uma semana inteira de dedicação”, afirma. Karen não vive apenas do trabalho com o crochê. Em parceria com os amigos grafiteiros, ela tenta introduzir sua arte no mercado. “Trabalhar na rua é muito legal e quero continuar. As pessoas sempre param e olham curiosas. Conversar com elas e vê-las interessadas na minha arte são coisas que me motivam a continuar com este projeto”, afirma.
Os trabalhos manuais estão em alta e, com isso, o crochê voltou à cena fashion. Mas não é qualquer peça handmade que tem feito a cabeça de quem adora seguir as tendências da vez. É a regata mais curtinha com aparência de feita pela vovó que caiu no gosto das fashionistas e virou item-desejo absoluto. Confira!

A cada temporada, novas peças surgem como desejo imediato para renovar o guarda-roupa da estação. Neste inverno, são os modelos feitos à mão, que prometem reinar na wishlist das fashionistas, mais especificamente os tops de crochê.

Direto da passarela da Miu Miu, a regatinha handmade, que parece ter sido resgatada do guarda-roupa da infância, é sem dúvida o hit da temporada.
Colorida e com desenhos geométricos, ela tem sido usada com frequência pelas blogueiras de moda nacionais e internacionais. Algumas, inclusive, se arriscam a lançar mão da linha e agulha para reproduzir em casa um modelo superexclusivo.

E, na hora de usar, o item da vez nunca aparece sozinho. Ele é sempre sobreposto a camisas ou golas rulês, garantindo um charme extra às peças clássicas e o perfume 70’s que está em voga. Para combinar, o jeans é a melhor escolha.

Quer ir além? Não hesite em investir em vestidos, saias ou outros modelos de tops produzidos com a mesma técnica. No Brasil, as designers Vanessa Montoro e Giovanna Dias – queridinha de Helena Bordon – são referência no assunto. Vale conferir!






